Tudo começa com um casal nosso amigo. Por acaso o Dono até conhece o sujeito há coisa de 20 anos, mas isso é só um pormenor. Eu e a respectiva entrámos em cena mais tarde. Conheci o Dono quando eles os dois se conheceram, depois veio a fase do namoro, depois o s respectivos casamentos. Há 4 meses nasceu a filha deles. O Dono foi convidado para ser padrinho.
Hoje era suposto mãe e filha virem visitar-me. Eu estou em casa, mais concretamente na cama, o dia todo sem fazer grande coisa, portanto as visitas são o highlight do meu dia. Mas a medicação do Sushi tinha acabado, o vet não tinha mais em stock e eu tinha de o manter debaixo de olho at all times antes que ele se apanhasse sozinho e começasse a lamber as feridas outra vez e o tratamento fosse todo por água abaixo. Então peguei no telefone de manhã e pus-lhe a coisa nestes termos:
- Eu sei que normalmente fecho os cães num quarto quando cá vens visitar-me, mas hoje não posso mesmo deixar o Sushi sem vigilância (e expliquei o motivo). Portanto em vez de te apresentar um facto consumado estou a dar-te a hipótese de decidires se queres cá vir com a bebé sabendo à partida que o Sushi vai estar solto. Já o conheces, sabes que ele é super meigo e calmo, que não salta, não morde, não chateia ninguém, mas achei melhor deixar à tua consideração. Se preferires, vens cá visitar-me num dia em que ele esteja medicado e eu saiba que posso deixá-lo sozinho sem que ele desate a automutilar-se outra vez.
E antes de lhe ligaar eu já sabia que ela não viria. Da mesma forma que sabia que se fosse qualquer outra pessoa nem seria preciso ligar de propósito a perguntar. Da mesma forma que sei que é minha amiga e é boa pessoa e que na teoria gosta de animais, mas no fundo é mais uma daquelas pessoas que faz um bicho de sete cabeças em relação ao binómio animais-crianças. E por isso estou desejosa que a Danoninha nasça, que cresça a brincar com os seus dois póneis, que eles comam a papa que ela deixe cair ao chão, que eles me venham avisar quando ela estiver a chorar, que todas as pequenas coisas do dia-a-dia na nossa casa com a nossa família de 5 membros provem a todos os que quiserem ver com olhos de ver que não é preciso fazer um bicho de sete cabeças. Essa será a minha luta até ao fim. Como costuma dizer o Dono a gozar: "Sim, como se fossemos o primeiro casal na história da Humanidade a ter cães e filhos. Deve ser mesmo inédito, por isso é que toda a gente nos pergunta como é que vamos fazer."
A ironia? Esse mesmo casal vai passar o próximo fim de semana com o nosso grupo de amigos e vai lá estar um rafeiro alentejano muito maior do que o Sushi e um outro cão de porte médio ainda muito novinho e eléctrico que pelo que já o conheço vai fartar-se de saltar e de lamber e fazer disparates. E aí quero ver quem consegue controlá-lo ou "proteger" a bebé dele.
Ter medo do Sushi? DO SUSHI???
Ponho as minhas mãos no fogo por este cão, atiro-me para a frente de um carro para o salvar, confio nele para me proteger a mim e à Danoninha de quem ousasse tentar fazer-nos mal. É para verem o quanto amo o meu cão. Mas isso sou eu. Nem toda a gente é obrigada a pensar assim ou a sentir o mesmo por ele, como é óbvio. Reparem que não digo o mesmo em relação à Emma, porque a conheço e sei como é bruta e tresloucada. Não sou fundamentalista nem obtusa. O cão é meu, mas a filha é dela e eu respeito isso. Mas a mim irrita-me o preconceito. E aqui entre nós também me preocupa a ilusão de que se pode proteger os filhos de tudo, quando na verdade tudo o que podemos é dar o nosso melhor e aceitar que às vezes eles vão cair ou alguém vai ser cruel para eles na escolinha ou vão ficar doentes ou sei lá. Ou um cão com o focinho húmido vai querer cheirá-los e dar-lhes uma lambidela. Ui, cruzes credo!